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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui (Parte XXX)

Já passava das 16h e Pedro permanecia sentado sob a mesma árvore há duas horas. O parque estava no auge de seu movimento costumeiro de domingo. Punks com garrafões de vinho, pais e filhos e grupos de jovens, andavam de um lado para o outro, como uma legião de mortos-vivos, vagando sem saber ao certo o motivo.
Pedro gostava da Redenção, mas não conseguia entender o porquê de todas àquelas pessoas estarem ali também. Quando ia, normalmente, levava uma garrafa térmica e seu chimarrão, procurando uma sombra a seguir, a fim de acomodar-se e apreciar o dia. Se estivesse com Chico, ou algum colega da Federal, usava aquele período para trocar experiências. Falar sobre política, futebol, música, pois a seu ver, estes temas geravam conhecimento. Se fosse sozinho, usava a sombra das árvores como abrigo para pensar na vida, planejar o futuro, lembrar-se da família e na saudade que sentia, ou então, ler um bom livro.
Mas aquelas pessoas não. Andavam, de um lado para o outro em silêncio, com olhar perdido, como se fossem robôs sem emoção, dor ou sentimentos. Não olhavam o céu azul, não admiravam os pássaros que, volta e meia, sobrevoavam suas cabeças, não contemplavam os monumentos ou a natureza. Apenas caminhavam inertes, em seus mundos de tristeza e solidão, como se os domingos fossem o prelúdio da execução de suas penas de morte, ou no caso, penas de vida, pois viver parecia-lhes ser um fardo pesado demais para carregar.
Pedro permanecia imerso em seus pensamentos e, por isso, não reparou quando alguém se aproximou e parou em pé ao seu lado, de braços cruzados e um ar de deboche no semblante.
(Continua...)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XXIX)

Pedro não saiu no sábado à noite, apesar da insistência de Chico, que após incessantes investidas, mandou-o longe e resolveu sair sozinho pela noite da Cidade Baixa. Ele entendia que precisava se preservar para encontrar Ana no domingo e, por isso, não deveria se esbaldar na madrugada.
Custou a dormir, pois passou muito tempo a imaginar o reencontro. Ficou lá, deitado no escuro, tendo mil ideias de como seria a abordagem, o diálogo entre os dois, o desenrolar da conversa. Tinha uma grande expectativa, mas também, certo temor de sofrer uma decepção. Ela podia ignora-lo, ou trata-lo de maneira ríspida. Trabalhava sua mente de maneira a travar sua euforia.
Acordou cedo e bem disposto naquela manhã ensolarada de janeiro. Preparou o chimarrão e ficou lá sentado no lugar habitual, vendo o escasso movimento das ruas. Seu coração acelerava de tempos em tempos, normalmente, quando os pensamentos sobre Ana eram retomados.
Aquela manhã transcorreu sem grandes sobressaltos, bem como o almoço. Após sair da mesa, correu para o único banheiro do segundo andar. Fez a barba, que cultivara durante toda a semana, com muito esmero. Cobriu os pequenos pontos de sangue com papel, ao mesmo tempo que vistoriava com afinco seu rosto, em busca de alguma espinha ou pelo esquecido. A seguir, tomou um demorado banho, esfregando cada parte de seu corpo duas ou três vezes, a fim de garantir que nenhum lugar fosse esquecido.
Ao retornar para o quarto, percebeu que Chico ainda dormia, com metade do corpo para fora da cama, numa posição que desafiava algumas leis da física. Possivelmente, estava bêbado demais quando chegou e não conseguiu nem mesmo levar o corpo inteiro para a posição correta, mas Pedro não estava interessado nisso. Passou desodorante e sua loção pós-barba de aroma marcante, amadeirado e forte, que ganhara de seu pai há algum tempo. Também perdeu longos minutos tentando ajeitar seu cabelo, que não via uma tesoura desde meados de novembro. Por fim, infligiu uma quantidade exagerada de gel sobre todos os fios, moldando-os de forma com que parecessem menos horrorosos.
Escolheu a roupa cuidadosamente. Não poderia colocar sua surrada camisa do Grêmio de 1995, ou então, alguma camiseta de banda de rock. Preferiu uma bermuda azul escura com bolsos dos lados, uma camiseta branca e seu tênis All Star sem meias.
Fez um novo mate e, antes das 14h, dirigiu-se ao Parque Farroupilha, posicionando-se próximo ao Espelho da Água e do Monumento ao Expedicionário, debaixo de uma árvore de copa frondosa, que lhe fornecia uma bela sombra para seus momentos de espera.
(Continua...)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XXVIII)

Pedro ficou lá, estático, em meio ao salão cheio. “Como assim, ela me encontra?”. Não sabia bem como agir, ou o que dizer. Decorridos alguns segundos, percebeu que ficar parado ali não era a melhor solução para alguém que precisava de respostas.
Atravessou a pista de dança e posicionou-se ao lado da saída do banheiro feminino. Aquela Bebel teria que lhe dizer algo a mais. Não podia ser só isso! Precisava de uma informação mais completa, senão, corria o risco de nunca mais encontrar Ana.
Bebel, ao sair do banheiro, assustou-se quando viu aquele vulto ali posicionado, quase na porta, com cara de zangado.
“- O que foi?”, disse Bebel em um tom blasé.
“- Preciso de mais respostas!”, agora, falando de maneira um tanto ameaçadora.
“- Vamos ali fora, preciso fumar um cigarro!”, resignou-se a dizer Bebel.
Ao chegarem à área de fumantes, que nada mais era do que um cercadinho, localizado em frente ao bar, Bebel explicou a Pedro que Ana era uma menina confusa. Que aparecia e desaparecia com a mesma facilidade e, por isso, era mais sensato esperar que ela o procurasse. Na verdade, segundo Bebel, era bem provável que Ana nem ao menos se lembrasse dele, pois era uma pessoa impulsiva e que só olhava para frente.
Mesmo assim, Pedro não se convenceu que deveria desistir. Questionou, novamente, como poderia encontra-la.
Após um longo suspiro de desaprovação, Bebel explicou que não daria o telefone de Ana a um “desconhecido”. Mas que, se ele quisesse, elas haviam combinado de tomar um chimarrão no Parque da Redenção, domingo à tarde.
Porém, alertou-o com veemência de que, em nenhum momento, poderia garantir que ela seria simpática, ou retribuiria a atenção dispensada por ele. Pelo contrário, tinha quase certeza de que Ana o ignoraria solenemente, como ela já vira acontecer diversas vezes com outros caras.
Pedro não escutou nenhum dos alertas que Bebel lhe deu. Pensava apenas na angústia que seria esperar até domingo para vê-la novamente. O que lhe diria? Ela se lembraria dele? Enquanto viajava em seu mundo, Bebel lhe estendeu o maço de cigarros, oferecendo-lhe. Ele não pensou, apanhou um, posicionou no canto da boca. Ela, prontamente, estendeu o isqueiro em direção a Pedro, acendendo seu cigarro.
Oh, Ana! Finalmente! Poderia revê-la! Aguardaria ansiosamente aquele domingo. Malditos dias que teimam em passar vagarosos quando precisamos que voem! Vamos, tempo! Me leve diretamente para o dia de Ana!
Envolto em seus devaneios, Pedro deu uma longa tragada no cigarro. Logo em seguida, passou a tossir desesperadoramente. Arrancou o cigarro da boca com raiva, atirando-o ao chão. Lembrou-se, tardiamente, que jamais fumara em toda sua vida.
(Continua...)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XXVII)

“- Oi! Tu que é o famoso Pedro?“, disse uma menina baixinha, de óculos de aros grossos, com um largo sorriso no rosto, possivelmente em decorrência da travessura que acabar de aprontar.
“- Sim, sou eu. Porque tu me bateu?”, respondeu ele, com a mão em forma de concha cobrindo a orelha, que a essa altura, ardia como fogo em brasa.
“- Sou a Isabel. Na verdade, Bebel, pois Isabel me soa como nome de mulher velha!”, disse ela, fazendo uma careta ao citar seu nome de batismo, e prosseguiu:
“- Desculpa! Bati forte? Não era minha intenção!”.
“- Não, tudo bem, já passou. Mas de onde tu me conhece?” Disse Pedro, com um olhar desconfiado.
“- Foi o Chico quem me mostrou quem tu era. Disse que tu queria falar comigo.”
Pedro ficou desconcertado. Ela era a Bebel, amiga de Ana? Aquilo era mesmo verdade? Estava a um passo de reencontrar a moça que lhe virou a cabeça em uma noite de ano novo?
“- Sim... sim! Quero falar contigo, mesmo! Preciso te perguntar uma coisa.”, apressou-se em dizer, com um tom de euforia na voz.
Bebel ostentava um copo grande de um drinque azul, com uma rodela de laranja posicionada na borda. Pedro reparou que ela era um tanto esquisita. Baixinha e com aqueles óculos com aros grossos e quadrados, que lhe lembrava Elvis Costello, incluindo um esparadrapo branco na junção entre os dois lados, possivelmente, por que aquele tipo devia machucar um pouco o nariz. Aquele formato de óculos tornava seu rosto enorme.
“- Queria te perguntar se tu conhece a Ana?”, retorquiu Pedro, falando um pouco mais alto do que estava acostumado, devido ao enorme barulho do recinto.
“- Quem?”, gritou Bebel, em resposta.
Pedro, que não gostava nem um pouco de repetir uma frase, bradou:
“- A-N-A! Sabe? De cabelos vermelhos! Preciso falar com ela!”, em um tom impossível de não ser ouvido por qualquer um em um raio de 3 metros de onde estavam.
Bebel Deu um passo para trás e começou a olhar Pedro com um ar de curiosidade, enquanto sorvia o liquido azul do copo. Após alguns instantes, deixou o drinque sobre uma mesinha que ficava ao lado, puxou-o pelo braço, para que sua cabeça ficasse mais próxima a seus lábios e, ao chegar bem perto do ouvido de seu interlocutor, falou:
“- Pedro, você me parece um cara legal. Fui com a tua cara e tal, mas é melhor tu saber desde já que ninguém encontra a Ana. Se ela quiser – e só se ela quiser – é ela quem vai te encontrar.”, soltando esta última frase retomando seu copo sobre a mesa e saindo, a seguir, rumo ao banheiro feminino.
(Continua...)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (ParteXXVI)

Muito antes do horário de sair, Pedro já estava pronto. Banho tomado, cabelo penteado com muito esmero e barba feita. Tinha a impressão de que naquela noite a sorte iria lhe sorrir.
No horário marcado, Chico desceu para que pudessem ir à festa. Caminharam calmamente até o local, que ficava na Rua João Alfredo. Andar por aquelas ruas, ainda mais com uma temperatura agradável como a daquela noite, trazia muita paz e tranquilidade para Pedro. A junção dos mais diferentes tipos de pessoas que circulavam pelo bairro, lhe dava a impressão de se tratar de algum tipo de experiência antropológica bizarra.
Em frente ao bar, avistaram algumas pessoas, que conversavam animadamente, em meio a nuvens de fumaça dos cigarros e copos plásticos contendo cerveja.
Ao perceber que ainda não havia fila formada para entrar, possivelmente por ser muito cedo para o padrão da Cidade Baixa, resolveram matar algum tempo, tomando algo ali pela rua mesmo. Também, este fato se devia ao custo elevado da cerveja dentro da festa, em relação ao preço encontrado nos botecos da região. Beber antes de entrar em alguma festa é prática comum, por baratear os custos para ficar bêbado, quando este é objetivo primordial da noite.
Observavam de longe o movimento em frente ao bar. Ao perceberem que a fila recebia membros de maneira um pouco mais intensa, trataram de dirigir-se para junto da formação a fim de pagar o ingresso e sofrer a “revista” dos seguranças.
O bar foi montado em um velho casarão, possivelmente do início do século XX, totalmente reformado e transformado para receber os frequentadores. No andar térreo, ao cruzar pela porta de entrada, havia um pequeno hall, onde os dois “Caixas” estavam posicionados e uma porta corta som, responsável pelo acesso ao salão. O próximo ambiente se parecia com um daqueles "pubs" ingleses. Um longo balcão de madeira em forma de "L", cercado de bancos altos, para quem preferisse ficar por ali tomando uma cerveja e algumas mesas espalhadas pelo ambiente. Os diversos cartazes antigos que cobriam nas paredes e a meia-luz ajudavam a tornar o ambiente mais aconchegante.
Do lado esquerdo, havia uma escada que levava para o próximo andar. O segundo piso era formado por um enorme espaço, entrecortado por alguns pilares, porém, só havia mesas nos cantos, e um pequeno balcão com bebidas
no fundo. A iluminação era fraca e o som extremamente alto. Aquele local fora pensado para servir como a “pista de dança” do bar. Algumas luzes coloridas de neon completavam a caracterização.
Foi neste segundo andar que Pedro e Chico decidiram montar guarda. Pediram duas cervejas ao garçom, pegaram uma mesinha próxima de uma janela e passaram a observar as poucas pessoas que já dançavam animadamente, ao som de alguma coisa parecida com música eletrônica, mas que nenhum dos dois era capaz de reconhecer.
Não muito tempo depois, alguns conhecidos de Chico chegaram e, desta forma se formou um grupo deles no canto. A noite transcorria sem maiores percalços. Algumas meninas dançavam e tomavam drinques coloridos, os rapazes, sempre com uma mão no bolso das calças jeans e o outro em um copo de cerveja ou whisky.
Em determinado momento da noite, enquanto Pedro discutia com um barbudo sobre cotas raciais e sociais em universidades públicas, recebeu um peteleco na orelha. Sentiu uma dor lancinante percorrer sua espinha e uma sensação de que sua orelha estava pegando fogo.
Quem diabos faria uma brincadeira tão idiota? Porque alguém se divertia cometendo um ato de agressão como esse? Não interessava quem tinha feito, ia tomar um esporro ‘daqueles’! Ora, onde já se viu? Pedro virou-se, com uma das mãos sobre a orelha atingida, pronto para mandar quem quer que fosse para a puta que pariu, porém, mudou rapidamente de planos quando percebeu de quem se tratava.
(Continua...)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XXV)

A virada de ano ocorreu sem maiores percalços ou emoções. Pedro ficou em companhia de seus familiares e de seus amigos do interior. Apesar de estar longe de casa há mais de dois anos, sempre que voltava, tinha a impressão de que nunca havia partido.
Sua mãe mantinha a organização de seu quarto impecável. Seus pôsteres das bandas de rock das quais gostava, as medalhas dos torneios de futebol do colégio e, até mesmo, sua coleção de latas de cerveja vazias, que ocupavam toda a parte superior de uma das portas do roupeiro, tudo era mantido com zelo, conservado para um possível retorno seu, que ela não escondia que esperava ansiosamente que ocorresse.
Quando chegou a Porto Alegre, apesar de encontrar um movimento caótico na rodoviária, muito comum em épocas festivas, Pedro já conseguia notar outro fenômeno característico dos meses de verão, ao menos, na capital – o esvaziamento das ruas, devido à ida de parte da população rumo ao litoral. Desde o ônibus que pegou, passando pela Av. Mauá e até mesmo o Parque da Redenção, todos os locais pareciam operar bem abaixo de sua capacidade usual do ano regular.
Apesar do calor úmido e sufocante de Porto Alegre durante o verão, Pedro preferia este período do ano, afinal, a cidade ficava mais calma e silenciosa, boa para caminhadas, ou para ir ao cinema, pois tudo ficava mais vazio. Parecia que até mesmo os habitantes reduziam o ritmo neste período, tornando-se mais tranquilos e humanos.
Os dias mais longos em decorrência do horário de verão e as férias da faculdade eram um verdadeiro convite para que, ao sair do trabalho, Pedro cevasse um chimarrão e ficasse lá sentado nas escadas da pensão, observando silenciosamente o movimento de carros e pessoas na rua. Elas iam de um lado a outro, parecendo, na verdade, vindos de lugar algum e indo para destino semelhante.
Num destes fins de tarde, enquanto sorvia um mate para espantar o calor e observava o movimento na avenida, viu Chico se aproximando. Ao ver Pedro ali sentado, foi logo exclamando:
“- Cara! Vai tomar um banho e colocar uma roupa que nós vamos sair hoje! Temos uma festinha para ir!” disse ele, com um tom engraçado na voz.
“- Festa? Que festa? Não ‘tô’ afim de sair não. Vou ficar por aqui, mas vai tu lá.”, respondeu Pedro, sem nem ao menos olhar para seu interlocutor.
“Deixa de ser veado! Por que não quer sair? Ainda pensando na morte da bezerra? A bezerrinha aquela que tu só sabe o nome, aposto?” disse Chico, agora com ar de deboche e reprimenda.
Pedro resignou-se a responder um quase inaudível “Não enche!” e prosseguiu em sua contemplação vespertina.
“- Só te digo uma coisa: se sou tu, eu iria! Tenho a informação de que algumas gurias do DCE estarão lá também. Quem sabe, a “dona“ Bebel não dá as caras na festinha?”, disse Chico em tom de desdém, como se o que estivesse dizendo não fosse algo relevante para a decisão de Pedro em ir ou não.
A última frase de Chico atingiu Pedro de maneira certeira e fulminante. Após ouvir o nome de Bebel, parece que todo o cansaço e preguiça, que há poucos instantes o deixavam quase sem forças até para respirar, sumiram como em um passe de mágica, sendo substituídos por um ânimo novo, uma vontade de ganhar as ruas para esticar as pernas e ver pessoas diferentes.
“- Que horas saímos?”, perguntou, já se levantando do degrau onde estava sentado.
“- É só às onze horas, portanto, te acalma e senta aí de novo. Sairemos umas dez e meia, ok?”, disse Chico, já subindo os degraus da soleira da pousada, para dar uma cochilada antes de cair na noite, afinal, não eram nem oito horas ainda.
Pedro, como era de seu feitio, já havia começado a pensar em Ana e na ótima oportunidade que teria - caso Bebel aparecesse na festa - de obter mais informações para falar com ela de novo. Hoje teria que dar certo!

domingo, 22 de setembro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XXIV)

Percebeu quando os três pararam em frente a sua mesa. Deu uma última respirada profunda, tentando recobrar a naturalidade no semblante. Porém, ao erguer o rosto acima do cardápio, pode ver com clareza que havia feito uma tremenda confusão: a moça não era Ana e, portanto, Chico não era um traidor.
"- Não estava me ouvindo não, Pedro? Te chamei feito um louco!" , disse Chico, com um ar de advertência.
"- Ehr... desculpa aí, Chico. Não vi que você me chamou..." retorquiu Pedro, com o semblante retomando sua aparência normal.
Chico apresentou Pedro ao casal de amigos que, coincidentemente, encontrou quando entrou no bar. Ela tinha cabelos vermelhos e a pele branca, porém, sua face não possuia nem a metade da beleza e encanto do rosto de Ana.
Apesar de não transparecer, Pedro sentia um alívio tomando conta de sua alma, como se tivesse recebido uma dose acalentadora de morfina. Não era Ana e, portanto, não tinha motivo para odia-la.
O restante da noite correu sem sobressaltos. O casal de amigos de Chico sentou-se a mesa e passou o restante da noite em companhia dos dois amigos.
Por volta das 23 horas, Pedro pediu licença aos demais, pagou sua parte na conta e voltou para a pousada, afinal, precisava acordar cedo no dia seguinte, ja que tinha que embarcar bem cedo em um ônibus para sua terra natal.
(Continua...)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XXIII)

Com medo de ser visto pelo casal, Pedro voltou apressadamente para sua mesa. Escondeu-se atrás de um cardápio que ali estava. Precisava sair dali. Seu coração, agora, batia descompassado pelo medo e, mais ainda, pela tristeza. Não entendia o motivo daquele sentimento, afinal de contas, eles só haviam se visto na noite de natal e até onde lembrava, ela não lhe falara nada sobre sua vida pessoal, muito menos sobre namorado e afins.
Ficou observando o casal espiando sobre o menu, que posicionou estrategicamente a sua frente. Percebeu que havia intimidade ali, pois eles estavam de mãos dadas sobre a mesa, rindo e conversando animadamente. Tinha a sensação que a cada risada que ouvia, um punhal atravessava seu coração, tornando-o menor e lhe causando uma dor lancinante.
Ao ver Chico entrar no bar, alguns minutos depois, pensou que ele poderia lhe ajudar a escapar da humilhação de ter que encarar Ana com outro cara. Não sabia ao certo porque estava tão incomodado, só sentia aquela dor que parecia ferir sua alma e lhe fazia desejar chorar como há muito não fazia.
Ficou acompanhando a entrada de Chico, aguardando o momento de fazer um sinal escondido, para que ele pudesse lhe ver. Porém, para sua completa surpresa - e pânico -, viu que ao passar pela mesa onde estava o casal, Chico abriu um largo sorriso, cumprimentando-os demoradamente.
Sentiu vontade de arrebentar a cara de Chico. Que belo amigo da onça estava se saindo! Mas ele ia ver uma coisa. Como aquele imbecil falava com eles de maneira tão natural e alegre, mesmo sabendo que Pedro passou os últimos dias pensando incessantemente nela?
Porém, o pior ainda estava por vir. Chico virou a cabeça em direção às demais mesas do bar e, quase imediatamente, identificou que era Pedro quem estava atrás do cardápio. Ao que parecia, comentou com o casal que estava ali para encontrar um amigo. Ao notar que a moça se virou para olhar para trás, abaixou-se, para que não pudesse ser visto.
Suas mãos começaram a suar litros. Pensava o porque de não abrir um buraco no chão para esconder-se. Amaldiçoou sua ideia de ir tomar aquela cerveja com Chico naquele bar. Amaldiçoou o dia em que Ana entrou em sua vida. Tinha medo da morte, mas até ela, não lhe parecia tão ruim agora.
O desespero tomou conta de sua mente de vez, quando ouviu de longe a voz de Chico a chama-lo: "Hei, Pedro! Vem cá! Quero te apresentar uns amigos meus! Pedro?!".
Pedro começou a olhar no entorno, porém, não havia rota de fuga, não tinha escapatória. Começou a ofegar, possivelmente prevendo o que aconteceria a seguir.
Ouviu as vozes de Chico e do casal se aproximando de sua mesa. Não poderia mais fugir, teria que enfrentar aquela situação. Respirou fundo algumas vezes e tomou mais um gole da cerveja. Chico estava trazendo-os para "apresenta-los" e não havia mais nada que Pedro pudesse fazer para escapar.
(Continua...)

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XXII)

Aqueles cabelos vermelhos atraíram seus olhos de forma fulminante. Seu coração disparou, dando-lhe a impressão que sairia pela boca a qualquer momento. O que diria a ela quando estivesse em sua frente? Ela lembraria-se dele? Passou a temer, diminuindo o passo. E se ela o tratasse mal?
Havia criado grande expectativa sobre este encontro mas, na verdade, nunca tinha pensado realmente no que dizer. Nem mesmo tinha cogitado a hipótese de que, talvez, ela não compartilhava da mesma vontade que ele apresentava.
Por conta destes pensamentos, parou no meio do caminho. Precisava planejar como aborda-la, bem como, qual seria sua estratégia de fuga, no caso de alguma coisa sair errado durante o reencontro.
Chegaria dizendo um "oi" alegre, bem humorado, demonstrando certa surpresa ao revê-la. Mas poderia parecer trivial demais e, ao que lhe pareceu, Ana não era uma pessoa que poderia se considerar "trivial".
Poderia também chegar dizendo "Hei, lembra de mim? Sou o Pedro, o cara da noite de natal!", mas achou que poderia soar apelativo e excessivamente submisso. Não queria dar a impressão de que desejava encontra-la ansiosamente desde a última vez.
Decepcionado por não encontrar a forma correta de iniciar o diálogo, resignou-se e retornou à sua mesa. Ao sentar, percebeu que Juarez o observava sem esboçar qualquer reação. Possivelmente, achava-o estranho por seu comportamento pouco usual. Tomou o restante da cerveja que repousava em seu copo e, com um pequeno aceno de mão, solicitou outra ao garçom.
Em seu cérebro, um luminoso piscante surgiu imponente em meio a sua confusão mental, dizendo "COVARDE", com letras garrafais vermelhas. Não podia acreditar que, mesmo estando tão perto de Ana, não seria capaz de tomar qualquer ação a fim de aproximar-se.
Juarez trouxe-lhe outra cerveja sem proferir qualquer palavra, reservando-se apenas a anotar o consumo na comanda. Pedro buscou os olhos dele, na intenção de encontrar alguma resposta, ou até mesmo, um ar de compreensão, em uma tentativa infrutífera de obter algum conforto para sua alma inquieta. Obviamente que Juarez nem ao menos percebeu-se de tudo isso, dando-lhe as costas assim que finalizou sua tarefa.
Já na metade da segunda garrafa, a coragem parecia brotar novamente em seu corpo. Tinha decidido que não deixaria aquela oportunidade escapar. Já havia cometido o mesmo erro na noite de natal, mas desta vez, estava determinado a não repetir o mesmo equívoco.
Esvaziou o copo em um único gole. Ergueu-se abruptamente de sua cadeira, cuidando para parecer o mais ereto possível. Iniciou o deslocamento a passos lentos, porém determinados. Diria qualquer coisa quando chegasse e, depois, deixaria a conversa ocorrer naturalmente, sem pressão. Não planejaria mais nada, queria apenas aproximar-se dela, para ver seu rosto novamente.
Quando faltavam apenas uns cinco passos para chegar à sua mesa, percebeu que um rapaz entrou no recinto. Após percorrer com os olhos o ambiente, identificou onde ela se encontrava. Acenou rapidamente a mão e, ao chegar próximo, ela levantou-se, o recepcionado com um abraço forte com um beijo na boca, daqueles que somente amantes de longa data são capazes de dar.
Interrompeu sua aproximação novamente e, sem saber o que fazer, ficou parado em meio ao bar vazio.
(Continua...)

sábado, 14 de setembro de 2013

Em algum lugar não muito longe daqui... (Parte XXI)

Pedro esforçava-se para não pensar em Ana durante aquela semana. Porto Alegre já dava sinais claros do esvaziamento que ocorre anualmente nesta época, com as famílias dirigindo-se ao litoral, ou rumando para junto de suas famílias no interior do estado, para as festividades de ano novo.
Tinha passagens compradas para rumar para sua terra natal, pois a saudade de casa estava difícil de suportar. Teria alguns dias para ver sua mãe e seu pai. Sentir aquele cheiro da comida no fogão e da roupa limpa no varal. Das animadas trivialidades de sua irmã, durante a reunião para o jantar. Queria voltar um dia, cuidar dos negócios da família. Casar com alguma moça direita, constituir família e viver o resto de sua vida sossegado.
Ana, ao que parecia, era o extremo oposto do perfil de mulher que almejava em seu plano. Mas não conseguia parar de pensar nela. Não entendia bem o motivo. Talvez, estivesse ainda sob o efeito arrebatador das novidades vividas na noite de natal. Aquela experiência, além de ter sido maravilhosa, foi algo que nunca antes em sua vida havia ocorrido.
Os dias que antecederam sua ida para casa, foram de muito calor, o que tornava a espera ainda mais morosa e irritante. Embarcaria na quinta pela manhã. Na quarta, já tinha combinado com Chico de jogar sinuca ali na Rua Sarmento Leite. Não podia ficar até muito tarde na rua, pois tinha que rumar para a rodoviária bem cedo.
Saiu da livraria e foi direto ao bar. Como era razoavelmente cedo, o local ainda estava vazio. Garçons cuidavam dos detalhes para o bom funcionamento do bar no restante da noite. Como Chico sempre estava atrasado, sentou em uma mesa no fundo, próximo de sua mesa de sinuca preferida. Pedro tinha muitas manias. Sempre elegia, nos locais que frequentava, sua mesa preferida, ou o garçom de sua simpatia.
Estabeleceu-se e chamou Juarez, o garçom que sempre o atendia ali. Juarez era um homem grande, com a tez sempre vermelha e uma linha de suor permanente, que corria em sua testa. Sua camisa branca e suas calças pretas, pareciam ter sido tiradas de uma garrafa, pois sempre estavam amassadas. Ele não era simpático. Atendia sempre através de grunidos e onomatopéias, nem sempre compreendidas pelos clientes. Apesar do esteriótipo, Pedro simpatizava com ele, pois lhe lembrava seu tio Beto.
Pediu uma cerveja, que logo veio. Juarez o serviu e proferiu algo semelhante com um cumprimento. Pedro ficou ali observando o bar ainda vazio, inerte em seus pensamentos, que se distanciavam de seu corpo em velocidade impressionante.
Quando retornou de seu devaneio, percebeu que havia outra mesa ocupada no local. Mesmo que distante, imediatamente distinguiu de quem se tratava.
Não titubeou, levantou-se de seu lugar e dirigiu-se à mesa onde uma bela jovem sorvia um copo de tequila, em um único gole.
(Continua...)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XX)

Pedro sentiu algo ruim tomando conta de seu corpo. “- Como assim, sozinho?” pensou. Tinha a impressão que a alma sairia de seu corpo a qualquer momento. Estaria enlouquecendo de vez? Seu olhar para Chico, agora, era de espanto e horror. Seu rosto ganhou contornos dramáticos e sua tez, já branca naturalmente, perdeu completamente qualquer sinal de vida que pudesse ter. Suas mãos começaram a suar e o mal estar, que agora assumia o controle das ações, o fez quedar novamente sobre os degraus da pousada.
Permaneceu em sepulcral silêncio por instantes, em uma tentativa infrutífera, de reorganizar as ideias e dar algum sentido para aquilo que Chico acabara de lhe dizer.
Chico o fitava, com um inadvertido ar de deboche no semblante, porém, já demonstrando certa preocupação àquela altura, pelo estado de choque em que Pedro se encontrava.
“- Pedro, você é um idiota!”, disse Chico por fim, prosseguido de uma gargalhada alta, como se houvessem lhe contado a piada mais engraçada do mundo.
“- Como assim, Chico?” perguntou Pedro, ainda com uma voz lânguida em decorrência do susto.
“- Sim, pateta! É um idiota completo! Não está vendo que estou brincando contigo, cara? Claro que vi que você falava com a Ana ontem à noite. Como você ainda cai nas minhas brincadeiras?” retorquiu, entre risos, à pergunta de Pedro.
“- Poxa, Chico! Que brincadeira mais sem graça! Achei que eu estava ficando maluco!” disse Pedro, com uma risadinha encabulada, que deixava transparecer seu descontentamento por aquela galhofa, mas também, demonstrando certo descontentamento consigo, por novamente ter sido alvo fácil para as chacotas de Chico.
Com as coisas esclarecidas, Pedro acalmou-se e, a partir de então, começou a sabatinar Chico acerca de Ana. De onde vinha, quem era, para onde ia, qual seu telefone, eram apenas algumas das inúmeras questões que permeavam os questionamentos de Pedro.
Porém, para sua decepção, Chico foi reticente sobre o que sabia sobre Ana. Explicou a Pedro que ela, na verdade, era amiga da Bebel, que estudava com ele na Federal e, por conta disso, vez ou outra, aparecia em suas rodas de amigos da Cidade Baixa. Nunca haviam conversado muito, sendo seus diálogos resumidos apenas na troca de meia dúzia de palavras, durante alguma discussão do grupo.
Pedro ficou arrasado. Todas suas esperanças recaiam sobre Chico que, novamente, mostrou-se um verdadeiro pulha e nada pode fazer para ajuda-lo. Como encontraria Ana novamente? Ao menos, descobriu que poderia tentar falar com Bebel, para obter novas informações.
Chico, notando o esmorecimento do amigo, tratou logo de lançar uma nova onda de esperança no ar: “- Cara, fica tranquilo. Falamos com a Bebel mais tarde e, certamente, ela tem mais informações sobre a tal Ana. Se tudo der certo, hoje mesmo tu estará novamente nos braços daquela ruivinha sem graça para enche-la de beijos...”, proferindo esta última frase com franco ar de deboche, enquanto usava as mãos para simular marionetes beijando-se.
Pedro riu da encenação de Chico, porém, sua mente já trabalhava em seu próximo plano. Precisava, o quanto antes, falar com essa Bebel.
(Continua...)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XIX)

Aquele era um belo dia de sol. O calor até não era tão forte, mas em compensação, o famoso “mormaço” que cobria Porto Alegre, tornava o ar pesado e úmido, quase impossível de ser respirado. Pedro conhecia bem esse calor e sabia que, a melhor estratégia neste caso, era permanecer imóvel o maior tempo possível, evitando assim, qualquer desgaste desnecessário.
O chimarrão, apesar de quente, não lhe infligia mais calor. Na verdade, esta se tratava da única coisa que seu estômago aceitava receber. A todo instante, sua cabeça e estômago insistiam em lembra-lo de que havia exagerado na última noite.
Do outro lado da larga avenida, avistou algumas crianças brincando com seus pais, dirigindo-se ao Parque da Redenção, possivelmente, onde utilizariam seus brinquedos novos, que ganharam na noite de natal. Carrinhos, bolas de futebol, bonecas, bicicletas, cada uma daquelas crianças trazia algo nos braços. Algo que, naquele momento, era a coisa mais importante de seus mundos.
Com o que ele se importava? Sua família, com toda a certeza, era a coisa mais importante de todas. Lembrou-se do tom triste na voz de sua mãe quando telefonou para casa pela última vez. Sabia que não ter ido para junto dela, ainda mais naquela noite, foi doloroso demais de suportar. Assim que tivesse uma brecha, pegaria um ônibus e correria para casa. As ruas calmas, estreitas e cheias de rostos conhecidos lhe faziam muita falta.
Porto Alegre era tão fria, tão anônima. Desde quando chegou, há cerca de dois anos, nunca foi muito mais longe do que a Cidade Baixa ou no Centro. Sabia o valor da cerveja em qualquer bar da Avenida Lima e Silva e da Avenida República. Transformou aquele quadrilátero de pouco mais quatro quilômetros em sua cidade, seu domínio.
Na verdade, tinha medo de se perder, ser roubado, ou até morto. Ouvia muitas histórias sobre a capital, ou as lia no jornal. Uma vez, um conhecido seu de infância veio tentar a sorte em Porto Alegre. Depois de sua partida, não se ouviu mais falar dele, até que, um dia, a cidade toda descobriu seu trágico fim, em uma missa de domingo. O Padre João, logo após o início da missa, antes de começar a ladainha, pediu aos presentes para que fizessem uma oração silenciosa, na intenção de guiar a alma de Lucas Ribeiro para a luz, pois ele havia morrido naquela semana em uma tentativa de assalto, enquanto voltava da faculdade.
Todos os moradores da cidade ficaram muito chocados. A mãe de Lucas, beata e temente a deus, mais que qualquer um, largou as coisas da diocese, isolando-se do mundo. Seu pai, era visto frequentemente atravessando a cidade a pé, sem rumo, como se ainda não acreditasse naquilo. Alguns diziam que havia enlouquecido e que, na verdade, ele caminhava com a esperança de rever Lucas em algum lugar, vivo.
“- Ah, Porto Alegre, sua cidade horrorosa!”, pensou ele, com um sorriso triste no semblante. Apesar de temê-la, agora era capaz de ama-la também, pois foi ela quem lhe deu Ana, a moça dos cabelos vermelhos. Aquela menina que, em uma noite de natal, foi o maior presente que podia ter recebido.
Estaria ficando louco? Não parava de pensar na menina que nem sobrenome tinha, ou, pelo menos, ele não sabia se tinha. Teria ela o enfeitiçado? Se sim, gostaria de provar mais daquele feitiço. Tocar sua pele, sentir o gosto de sua boca, ouvir sua respiração ofegante no ouvido e o toque de suas unhas nas costas. Tudo fazia parte da poção mágica que ela havia lhe oferecido e que seria capaz de mata-lo, não por seu efeito maléfico e, sim, pela abstinência.
Ouviu o rangido da porta da frente da pousada, virou-se lentamente e viu a silhueta de Chico parado, de óculos escuros e cabelos bagunçados na soleira. Ele fechou a porta atrás de si e, sem dizer qualquer palavra, sentou-se nas escadas, ao lado de Pedro.
“- Chimarrão?” questionou Pedro, ao que foi prontamente respondido com um lento aceno de cabeça.
Ambos, agora, olhavam para o outro lado da avenida em absoluto silêncio. Ao que lhe parecia, Chico ainda permanecia bêbado, dado o estado deplorável de seu rosto, inchado e vermelho àquela altura.
Após passados uns cinco minutos, Pedro se encheu da espera. Virou-se rispidamente na direção de Chico e lhe indagou:
“- Chico! De onde saiu aquela guria, a Ana? Sabe, aquele de cabelos vermelhos e sardas no rosto?”
Chico permaneceu imóvel, sorvendo o mate, como se não tivesse ouvido absolutamente nada que Pedro lhe dissera há pouco.
“- Cara, tu me ouviu? A Ana estuda contigo na Federal? É militante do Partido Comunista? Fala homem!”, agora, transparecendo certa irritação.
Chico deixou a cuia sobre a pedra do degrau, virou-se lentamente para Chico e disse num tom frustrantemente calmo:
“- Que guria, Pedro? Que Ana?”
Pedro, então, levantou-se, já com suor nas axilas e com certo rubor na face, causados pelo aborrecimento que aquele sujeito lesado lhe impunha.
“- Porra, Chico! A guria que estava lá conosco tomando cerveja ontem! Saí com ela de lá, quando tu estavas falando merda com os teus amiguinhos comunistas, não lembra, cacete?” disse Pedro, em elevado tom de voz.
Chico ficou olhando-o como se nada daquilo que havia perguntado fizesse sentido. Lentamente, retirou os óculos escuros e, em um tom dramático, porém sério, falou:
“- Pedro, o que tu usou ontem? Carinha, tu só pode estar louco! Não conheço nenhuma Ana. Não tinha ninguém com esse nome lá!”
Pedro continuou a encarar Chico, sem entender bulhufas do rumo caótico que aquela conversa havia tomado.
Diante do olhar de incredulidade de Pedro, Chico, parecendo proferir estas últimas palavras com extremo cuidado, disse:
“Cara, até onde me lembro, tu estava lá escorado na parede da escola e, sem dizer qualquer coisa, virou as costas e saiu caminhando pela República, so-zi-nho!”.
(Continua...)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XVIII)

Pedro acordou com uma tremenda dor de cabeça, daquelas em que o sujeito sente um enorme desejo de pular do mais alto dos edifícios, porém, apesar disto, sentia-se feliz como nunca, pois tivera uma noite maravilhosa, como nunca antes tivera em toda sua vida.
Em contrapartida, também sentia uma profunda angustia ao lembrar que cometera um dos maiores erros de sua vida: não pegar o número do telefone de Ana.
Passou algum tempo lá deitado, olhando para o teto, com um dos braços apoiando a cabeça, relembrando tudo que havia vivido há poucas horas. As memórias ressurgiam em sua mente, pouco a pouco e eram tão reais. A sensação do toque da pele de Ana na sua, seus beijos e carícias, permaneciam intactas em sua derme.
Deu um longo suspiro ao constatar que havia dois fios de cabelo, longos e vermelhos, repousando sobre o travesseiro. As únicas testemunhas oculares daquela noite, que ficaria eternamente marcada como a noite em que Pedro possuiu e amou Ana.
Nos lençóis, ainda restavam resquícios de seu perfume. Um aroma que lhe fazia lembrar canela e flores. Era um perfume doce e cítrico ao mesmo tempo. Aquele era o melhor perfume que podia existir em todo o planeta, pois era o perfume dela.
Ao olhar para o outro lado do pequeno quarto, observou que Chico estava deitado em sua cama, de barriga para baixo, ainda de roupa e tênis, porém, com uma das pernas esticadas para fora. Podia sentir o hálito de álcool que ele exalava durante a respiração, mesmo estando relativamente longe. Pensou um pouco, entretanto, não conseguiu lembrar se viu a hora em que Chico chegou.
Sentiu vontade de acorda-lo, imediatamente, para lhe fazer algumas perguntas sobre Ana. “- De onde ela era? Tens seu número de telefone? De onde a conhece?”. Essas questões martelavam no fundo de sua cabeça. Maldito Chico! Bêbado infeliz! Por que não acordava logo? Ele não sabia que Pedro estava perdendo minutos valiosos, em que já poderia estar falando com ela?
Apesar da angustia, preferiu não acorda-lo, pois sabia que o humor de Chico ao acordar, ainda mais de ressaca, era comparável ao azedume de um limão campeiro. Era provável que, se tentasse acorda-lo, seria mandado, ipsis litteris à "puta que o pariu". Preferiu descer para sevar um chimarrão, no intuito de esperar até que seu companheiro de quarto despertasse, além de poder ficar mais tempo pensando em Ana e em seus cabelos vermelhos, sua tez branca, como uma escultura de gesso esculpida na Grécia antiga.
Após encerrar todos os preparativos para o chimarrão, encheu uma garrafa térmica com água quente, sentou-se nos degraus localizados em frente à pousada e, sob o olhar do monumento de Bento Gonçalves, ficou observando o movimento da rua. Mas, intimamente, o que ele queria na verdade, era cuidar o movimento dos táxis que por ali passavam, com a esperança de que ela estaria em algum deles.
(Continua...)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XVII)

Amaram-se como loucos naquela noite. Primeiro, sobre a grande mesa da cozinha. Depois, Pedro a tomou nos braços e foram para o pequeno quarto. Amaram-se como se fossem dois amantes de longa data. Seus corpos possuíam uma sintonia impressionante. Pedro, simplesmente, não conseguia deixar suas mãos longe da superfície da pele branca de Ana que, por sua vez, parecia conhecer todas as nuances da arte do prazer, enlouquecendo-o cada vez mais.
Já passavam das cinco da manhã quando Pedro, extasiado, deixou-se cair para um dos lados de sua cama de solteiro, num misto de êxtase e cansaço, que misturados com as altas doses de álcool consumidas naquela noite, o tornaram uma figura imprestável.
Ana aninhou-se entre seus braços, como se estivesse buscando por um esconderijo, um lugar seguro para viver aquele momento de pura intimidade e ternura. Nos corpos quentes, era possível observar alguns resquícios do amor que acabaram de praticar. Gotículas de suor exalavam de seus corpos incessantemente, escorrendo por toda a extensão de suas costas.
“- Gostou?”, perguntou Ana, com um sorrisinho no rosto e um ar de infantilidade na voz.
“- Se gostei? Nossa! Não tenho nem palavras para descrever. Só sei o quanto minhas pernas ainda estão ‘bambas’ depois desta maratona!”, falou Pedro, em um tom divertidamente cansado.
“- Eu também gostei. Mas não pense que foi só por causa do sexo. Foi por todo o contexto sabe? Parecia que já nos conhecíamos antes. Senti-me protegida e amada por você. Essas coisas não tem como fingir. Foi a melhor noite da minha vida, Pedro.”, proferiu Ana, lhe dando um beijo maroto nos lábios,  ao fim da última frase.
Pedro ficou acariciando os cabelos de Ana e respirando o ar que vinha deles, pois a cada movimento que fazia, seu perfume lhe atingia as narinas. Ana, por sua vez, ficou acariciando seu braço, entretida com os pelos que o cobriam e absorta em seus pensamentos, que pareciam distantes, àquela altura.
Decorrida aproximadamente uma hora, ainda mergulhados no mundinho de Ana e Pedro, chegou o momento que os dois não podiam evitar, mas que não pareciam muito dispostos a aceitar:
“- Pedro, preciso ir.”, disse Ana, com ar de pesar, como se aquilo não fosse o que realmente gostaria de fazer.
“- Você precisa ir mesmo? Não quer ficar um pouco mais? Espera amanhecer, quem sabe?”
Ana soltou um riso triste, fitou Pedro e disse:
“- Não posso mesmo. Sou meio vampira, sabe? Só posso andar na calada da noite. A luz do sol pode me fazer mal”.
Pedro preferiu não insistir. Ao invés disso, começou a vasculhar o chão do quarto em busca das peças de roupa que estavam espalhadas por todo o lado. A seguir, vestiram-se e foram para a porta da pousada.
“- Quer que eu chame um táxi para você?” perguntou Pedro.
“- Não precisa. Vou ligar para um taxista que conheço, para ver se ele ainda está trabalhando numa hora destas.”, respondeu Ana, apanhando um aparelho celular na bolsa e se afastando um pouco de onde permanecia Pedro.
Passados alguns minutos, ouviu-se o toque de uma buzina. Ana agarrou Pedro pelo pescoço, puxando-o em sua direção e lhe deu um beijo ardente, a seguir.
Depois, soltou-o de maneira abrupta, virando-se em direção à saída. Abriu a porta e, antes de deixar a velha casa, lançou um olhar estranho para Pedro, dizendo:
“- Nos vemos por aí, meu príncipe!”, deixando o local e batendo a porta à suas costas.
Pedro permaneceu imóvel no hall de entrada da pousada. Tinha a impressão de que estava acordando de um sonho maravilhoso. Sentia vontade de gritar, pular, dançar. “- Que noite amigos. Que noite!”, pensou ele com um sorriso no rosto.
Porém, passados apenas alguns segundos, foi tomado de uma espécie de pânico. Girou a maçaneta da porta da pousada e correu para a rua. Entretanto, só pode ver a silhueta do táxi em que Ana estava, seguindo rapidamente pela Avenida da Azenha, em Direção à Avenida Ipiranga.
Olhou para o chão e chutou uma pedra. “- Como sou burro!”, pensou. Resignado com sua incompetência, caminhou em direção à porta da pousada, arrastando os pés, pensando como faria para vê-la novamente, pois se esqueceu de perguntar uma coisa tremendamente importante: seu maldito número do telefone.
(Continua...)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XVI)

Colocou-a sobre a mesa, sentada, enquanto ele permaneceu de pé na sua frente. As pernas dela pareciam cobras, entrelaçadas nas dele puxando seu corpo para perto, formando uma espécie de arco, onde os quadris se encaixavam perfeitamente.
Seus beijos eram entrecortados pelo arfar causado, principalmente, pela respiração veloz decorrente do desejo, que ardia cada vez mais em seus corpos. Outro fator preponderante para haver toda aquela excitação no ar, pelo menos para Pedro, era o fato de que aquela noite era inusitada demais, incluindo o fato dele encontrar-se de pé, na cozinha da pousada, prestes a transar com uma pessoa que conhecera há pouco mais de duas horas. Era, sem sombra de dúvidas, a coisa mais insana que já tinha feito em toda a sua vida.
Suas mãos, suas pernas e suas bocas mantinham um contato incessante e voraz, em um movimento sincronizado, uma dança sensual, que não precisava de música, pois a melodia já era conhecida profundamente pelos dançarinos.
Repentinamente, Ana segurou o rosto de Pedro com as duas mãos, afastando-o do seu. Apesar do breu, Pedro enxergava nitidamente os olhos brilhantes de Ana, que fitava-o fixamente.
“- Que foi, Ana? Por que está me olhando assim?” disse Pedro, sem entender.
Após breve silêncio, ainda o olhando no fundo dos olhos, ela dispara:
“- Pedro, diga que me ama!”
Ele entreabriu a boca, estupefato e confuso, por conta do que Ana acabara de lhe dizer.
“- O... o que? Como assim, dizer que te amo?”
“- Vamos Pedro, diga que me ama! Diga logo, Por favor?”, suplicou Ana, com os olhos arregalados.
Como Pedro poderia ama-la? Nem a conhecia, oras! Sabia que seu nome era Ana, apenas isso. Amiga do Chico, que legal. Mas amar, em tão pouco tempo? Como seria possível?
Mas naqueles segundos em que via seu rosto tão alvo e lindo e sentia suas mãos pequenas e macias lhe tocando, poderia Pedro não ama-la? Afinal de contas, o que era o amor mesmo? Pedro não sabia ao certo. Talvez ele não soubesse exatamente do que se tratava esse sentimento tão comentado, mas sentido apenas por alguns sortudos.
Tinha consciência de que amor não era igual àquela coisa melosa das novelas que assistia com sua mãe, depois do jantar. Tampouco, se aproximava daquelas histórias que lia nas revistinhas de “sacanagem” que seus primos mais velhos lhe emprestavam.
Comoveu-se com o pedido daquela menina de cabelos avermelhados, que lhe parecia tão singela e desprotegida naquele momento. Se ela queria amor, claro que poderia ama-la! E quem não amaria? Se amor fosse essa sensação de querer estar ali ao lado dela, em detrimento a estar em qualquer outro lugar do mundo, por que não seria amor?
“- Ana, eu te amo! Te amo loucamente! Te amo demais!” disse Pedro, com convicção.
Com lágrimas escorrendo pelo rosto e um sorriso de alívio, Ana disse:
“- Obrigada, Pedro! Eu acredito em você!”, tornando a beija-lo nos lábios.
(Continua...)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XV)

Ao ouvir aquela súplica, Pedro ficou estático por um instante. Para onde levaria Ana àquela hora e desprovido de recursos? Pensou rápido e, como se tivesse sendo tomado por um rompante de audácia, maximizada pela excitação que tomava conta de seu corpo, apanhou-a pela mão e guiando-a, a passos apressados, seguiram pela Avenida Lima e Silva, em direção a Rua Luiz Afonso onde dobraram à esquerda e, posteriormente, à direita, já adentrando a Avenida João Pessoa.
Após caminharem algumas quadras, foram aproximando-se da pousada onde Pedro morava àquela época. Ao chegarem mais perto, a coragem dele, que antes era tão evidente, foi sendo substituída por uma espécie de temor, e se fossem pegos?
Ana, percebendo-se da diminuição do ímpeto dele ao chegarem em frente da pousada, deu um passo a mais, em seguida girando o corpo de frente para o de Pedro, beijando-o ardentemente mais uma vez, evidenciando todo o desejo que emanava de sua pele.
Ao ser beijado, qualquer resquício de medo desapareceu como que por um passe de mágica, enchendo-lhe de coragem, similar à de um espartano que prepara-se para a guerra contra os persas.
Abriu a porta da pousada com alguma dificuldade, devido a enorme quantidade de chaves que compunham o molho. Ao entrarem, com os braços de Ana envoltos em seu pescoço, riram de seu aparente atabalhoamento. Suas bocas pareciam imãs que não podiam se separar. As mãos de Pedro percorriam a cintura, a barriga e as costas dela com vigor e firmeza, porém, com uma gentileza diferente de tudo ao que ela estava acostumada.
Ao entrar pela porta, a Pousada possuía um pequeno hall, com um velho cabide de três pernas, onde repousava um único chapéu, cujo dono nunca retornou para busca-lo, atribuindo-lhe o aspecto de uma silhueta humana. Além disso, também havia uma luminária que, como era possível observar, tinha deixado no passado seus melhores momentos. Já em uma porta localizada à esquerda, havia uma pequena salinha com um sofá velho, uma poltrona e uma televisão. As paredes eram beges e estavam hediondamente ornadas por quadros cafonas com imagens de cavalos, desgastados pelo tempo de serviços prestados.
Avançado um pouco através do hall, era possível observar uma escada de madeira que levava até os quartos no andar superior e, no final do corredor, estava a cozinha, onde tinha alguns balcões, duas geladeiras antigas e uma grande mesa em madeira, de aspecto muito ultrapassado mas que, porém, mantinha a firmeza e a beleza, principalmente por seus acabamentos trabalhados nos pés.
Ao fechar a porta, olhou para os lados, a fim de certificar-se de que estavam a sós, realmente. Quando teve a certeza de que não tinham companhia, agarrou a parte traseira das coxas de Ana, puxando-a em direção à sua cintura, fazendo com que ela ficasse suspensa do chão, com as pernas entrelaçadas em suas costas. Enquanto ele mantinha as mãos em suas nádegas para segura-la, ela apertou ainda mais seus braços em volta de seu pescoço.
Carregando-a, dirigiu-se para a cozinha, de onde poderia ouvir algum barulho vindo da porta da frente.
(Continua...)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XIV)

Pedro tomou um susto com aquele gesto. Gostou de Ana desde o momento em que a viu e isso não era motivo para discussão. Entretanto, não era acostumado com aquele tipo de situação em que a mulher assumia as rédeas das ações. Como rapaz interiorano que era, tinha o costume de ser o responsável pelos primeiros avanços em suas relações amorosas.
Porém, ao sentir os lábios quentes e carnudos de Ana tocando os seus, bem como a língua, que agilmente encontrou a sua, esqueceu-se de qualquer pré-conceito que, porventura, tivesse.
Nossa! Como aquele beijo era lascivo, vibrante e fazia com que despertassem seus instintos mais primitivos. Seu corpo, respondendo rapidamente aos instintos, foi invadido por ondas de calor, tão fortes que lhe faziam suar e tremer ao mesmo tempo.
Tinha a impressão de que aquele momento mágico parecia não fazer mais parte do tempo e espaço comum aos simples mortais. Ali parado, de olhos fechados, tinha a impressão de valsar na Lua, em uma dança nunca vista, como um casal de deuses, alheios àquela humidade podre e deprimente.
Essas pessoas enfadonhas que os cercavam jamais compreenderiam o que aquele momento significava. Ele, sim. Ele era parte integrante disto. Era ele quem beijava aquele anjo caído das nuvens, que lhe surgiu em uma noite de natal, tal uma estrela cadente. Seria ela a estrela guia dos reis magos, realizando novamente seu milagre, o guiando diretamente desta terra para as nuvens?
Foi arrancado repentinamente de suas ideias estapafúrdias pelo som da voz de Ana, quando ela disse, sussurrando, ao pé de seu ouvido:
“- Pedro me leva embora daqui!”
(Continua...)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui (Parte XIII)

“- Como... como assim???” balbuciou Pedro, com alguma dificuldade.
Ana rasgou a noite da Cidade Baixa com uma gargalhada espontânea, extremamente alta, que fez com que alguns transeuntes olhassem para o casal com olhares de desconfiança e curiosidade.
Após o riso, explicou-lhe que se tratava apenas de uma brincadeira e que não precisava ter medo, pelo menos não naquele momento. Aquele jeito de “moço do interior” de Pedro causava em Ana algo que não sabia ao certo explicar. Um misto de graça e encantamento estava tomando seus pensamentos a cada minuto que passava ao lado daquele rapaz de voz mansa, que lhe contava sua nada emocionante história de vida.
O jeito imaculado de Pedro a fez lembrar quando ainda acreditava nas pessoas e se preocupava com elas. Ela já foi uma pessoa melhor, pensou. Quando foi que ela tinha perdido de vez a esperança?
O álcool que, a essa altura, lhe deixava desinibida e pulsava em suas veias, passando por sua corrente sanguínea, rompia todas as possíveis barreiras que eventualmente poderiam permanecer em seu cérebro.
Ela se apaixonou por Pedro, concluiu. Nunca havia visto ele antes daquela noite, sabia muito pouco sobre ele, tudo estava muito confuso e rápido demais. Mas apaixonou-se loucamente. Adorou o jeito, a voz, o toque, a ingenuidade. Não conseguia parar de pensar naquele sorriso envergonhado que por vezes Pedro deixava escapar. Desejava coloca-lo em seu colo e protege-lo de tudo que poderia ferir seu coração puro e manchar sua alma.
Deu um último grande gole na cerveja, colocou a garrafa vazia no parapeito de uma vitrine de uma das lojas localizadas na base do edifício onde estavam e, sem pensar em mais nada, tomou o rosto de Pedro entre as mãos e beijou-o tenramente, como há muito tempo  não beijava ninguém.
(Continua...)

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XII)

Pedro sentia-se intimidado pela forma como Ana comportava-se. Como podia carregar toda aquela alegria e petulância, que pareciam transbordar de sua presença?
Caminharam até a esquina da Avenida Lima e Silva, onde ela perguntou-lhe se estava afim de uma cerveja. Assim que ouviu a resposta positiva de Pedro, desapareceu dentro do bar localizado no local. O bar estava lotado, repleto de mesas na calçada, com pessoas barulhentas falando alto e rindo, num cenário que lhe soava artificial, afinal, não acreditava que todos ali pudessem estar verdadeiramente alegres. Porque essas pessoas não estavam com suas famílias? Por acaso não tinham para onde voltar? Não sentiam saudades de seus pais?
Após alguns minutos, Ana retornou com duas cervejas, verdadeiramente geladas, entregando-lhe uma delas em seguida. Atravessaram a rua, pois na esquina em frente, não haviam muitas pessoas aglomeradas e, por isso, o barulho era menor.
Postaram-se debaixo da marquise de um edifício próximo. Pedro logo notou que Ana lhe lançava um olhar fixo e fulminante, como se estivesse tentando adivinhar seus pensamentos, ou ler sua alma.
“- Que foi?” questionou Pedro, um pouco temeroso.
“- Quem é Pedro?” inquiriu-lhe Ana, com um leve sorriso malicioso na face.
“- Como assim? Sou o Pedro, ué!” retorquiu ele, com uma certa inquietação tomando conta de seu semblante, fazendo com que suas bochechas corassem.
“- Não, bobo! Quero saber mais sobre você! Quem é você, o que faz da vida, de onde vem... entendeu? O que te faz estar na Cidade Baixa, as duas da manhã de uma noite de natal, falando com uma desconhecida?”. 
Após superar o pequeno mal entendido, Pedro desatou a falar sobre sua vida, sua família que deixou no interior quando veio à Capital atrás de seus sonhos, sua “ceia” de natal com Chico e mais todo o tipo de trivialidades, comuns àqueles que estão se conhecendo. Ao notar que Ana não perdia o interesse à medida que a conversa avançava, sentiu-se estimulado a falar mais e mais.
Depois de algum tempo, percebendo que o diálogo com Ana havia se transformado num monólogo, sentiu-se constrangido, pois lembrou-se das velhas “matraqueiras” de sua cidade, sempre sentadas nas varandas de suas casinhas, tricotando, tomando chimarrão e falando pelos cotovelos das vidas alheias. Sempre sabiam tudo sobre todos da cidade. Tinha a impressão de que se perguntasse a elas sobre a rotina exata de qualquer morador, elas prontamente teriam o relatório completo para repassar aos ouvidos dispostos a ouvi-las.
“- Acho que estou te chateando com essa minha falação toda. Saiba que, normalmente, não sou tão falante assim...”.
“Não, Pedro, tudo bem! Pode continuar, não está me chateando de maneira alguma!” disse Ana, parecendo sincera.
“- Sério, Ana. Chega de falarmos de mim. Minha vidinha sem graça não vale todo esse tempo perdido! Agora, quero saber mais sobre você! Quem é Ana?” disse ele junto com uma risadinha, retomando a pergunta que Ana lhe fizera no início do diálogo entre os dois.
Quase imediatamente, Ana fechou o semblante, mantendo seus olhos sobre Pedro. Fez uma cara de quem estava pensando no que poderia dizer, deixando transparecer um franzir de preocupação em sua testa. Após esse breve instante, que soava similar a uma “pausa dramática”, usada no teatro momentos antes de uma grande revelação, disse com voz grave e sussurrada:
“- Pedro, se eu te contar realmente quem é Ana e tudo sobre ela, serei obrigada a te matar...”.
(Continua...)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui... (Parte XI)

O olhar de Ana parecia saído de um velho filme em preto e branco dos anos 1930. Seus olhos grandes, em tom castanho-acinzentados, contrastavam lindamente com sua pele alva, tal qual a pintura delicada de uma boneca de porcelana, além daqueles cabelos avermelhados, presos em um desleixado rabo-de-cavalo, que acentuavam ainda mais seus traços ora infantis, ora sensuais, de mulher adulta. “- É amigo do Chico?”, perguntou. “- Sim, somos colegas de quarto na pensão.”, respondeu Pedro. “- Esse Chico é um doido! Vai te enlouquecer também, com essas coisas de comunismo!”, disse-lhe Ana, com aquela voz suave e gostosa de ouvir. “- Não te preocupa com isso. Quando ele começa a "viajar" demais nessas coisas eu saio de perto. Sou do interior, não tenho muita paciência com essas utopias políticas dele não...”, disse Pedro soltando uma breve risada no fim da frase. “- Então, vamos dar uma volta e sair de perto destes ‘comunas’? Daí tu podes me contar sobre o lugar lindo em que você estava quando cheguei.”, falou Ana, alegremente. “- Cla... claro!”, proferiu Pedro, com certo ar de incredulidade, pois não acreditava que aquela mulher linda o estava convidando para passear. Sua mente começou a maquinar que tudo aquilo, na verdade, tratava-se de alguma piada do Chico, um trote de mau gosto. Entretanto, ao olhar para onde ele estava, percebeu que estava ainda mais compenetrado em suas discussões políticas junto ao pessoal do movimento estudantil. Ele não faria tal maldade, pelo menos, não naquele momento. Mas e, se por acaso, fosse ela quem estivesse brincando? Seu jeito quieto de rapaz interiorano poderia ter despertado nela um espírito zombador, capaz de fazer piadas maldosas em plena noite de natal, com aquele “pseudo-capiau”? Porém, todos estes pensamentos sumiram, como num passe de mágica, no exato momento em que ela o puxou pela mão e o levou através da Avenida República. (continua...)