terça-feira, 23 de julho de 2013

Em algum lugar, não muito longe daqui (Parte VIII)

Pequena explicação do autor - Recebi este trecho da história por e-mail, de um leitor que prefere não se identificar, mas que está acompanhando toda essa história. Apesar de algumas pequenas alterações no texto original, necessárias para o bom andamento e continuidade da história, todas as formulações dos cenários e dos pensamentos de Ana, feitas por nosso ilustre desconhecido, foram mantidas pois, afinal de contas, entendi que se encaixaram perfeitamente ao contexto. Agradeço imensamente esta participação pois, acredite, foi de grande valia. Também, gostaria de aproveitar este adendo para deixar registrado, quase num tom de súplica, meu desejo de que mais pessoas sigam o exemplo do leitor anônimo. Sintam-se a vontade em contribuir também! Se não quiser receber os créditos, basta me avisar como o sujeito no caso supracitado. Do contrário, terei um enorme prazer em nominar todo àquele que enviar sua contribuição. Essa história começou de uma ideia colaborativa, das discussões literárias que tive com o Marcelo Carvalho e o Airton Zizu e, dessa forma, pretendo continua-la até o fim.
_____________________________________________________

Ana sentia como se sua cabeça tivesse sido utilizada como o bumbo da bateria de alguma escola de samba, tamanha a dor e o desconforto que sentia. Demorou alguns segundos até conseguir abrir os olhos. Outros tantos para discernir onde estava, pois simplesmente, não conseguia lembrar. Após algum esforço, reconheceu que tratava-se do quarto de Pedro. Ficou em silêncio absoluto, tentando traçar um mapa dos acontecimentos que a levaram àquele lugar que, apesar de conhecer tão bem, tinha a intenção de nunca mais voltar.
"- Como cheguei aqui?", pensou. "- Será que...", olhou rapidamente para si mesma e constatou, acompanhado de um pequeno suspiro, que continuava com a mesma roupa do dia anterior, exceto por seus sapatos, que estavam jogados ao lado da cama. A confusão mental lhe afligia. Queria conseguir pensar com clareza, mas suas ideias estavam desconexas, como se tivessem todas sido embaralhadas por um croupier, igual àqueles que sempre aparecem nos filmes de cassino que assistia na TV.
Ainda vacilante, porém com um gesto automático, levantou-se, juntou seus sapatos, pegou a bolsa e, silenciosamente, saiu do quarto. Ao chegar à porta, faz uma breve pausa, virando-se para olhar uma última vez o local da cama onde Pedro dormia pesadamente. Uma pequena sensação de déjà vu percorreu suas lembranças, tal como um fantasma do passado. Rapidamente, retomou sua fuga, fazendo questão de afastar-se daqueles pensamentos. Atravessou a sala, abriu a porta e partiu. Quantas vezes já havia feito esse mesmo movimento? Trôpega, desceu pelas escadas com certa dificuldade, alcançando o andar térreo. Reuniu o restante de suas forças para despender um breve sorriso de despedida ao vigilante que repousava, no auge de sua forma rotunda, em sua cadeira, localizada no pequeno saguão.
Logo, Ana viu-se ganhando as ruas da Cidade Baixa. Aquele ar que tomou suas narinas, um pouco gelado e úmido, característico das manhãs de outono de Porto Alegre, lhe causava a estranha sensação de devolver-lhe à vida. Continuou sua caminhada e, ao chegar na esquina entre a Rua República e a Avenida João Pessoa, sequer notava o que restava da já enfraquecida boêmia da cidade, representada por alguns jovens que ‘ziguezagueavam’ na calçada. Já passava das seis horas, de uma manhã ainda tímida, encoberta pela névoa característica desta época do ano.
Um único pensamento a perseguia e, com ele, a pergunta que não conseguia responder: "- Afinal de contas, o que foi fazer, de novo, naquele cubículo que Pedro insistia em chamar de casa?". Já não ia lá havia dois meses. Nenhum aviso, nem bilhete, ou sequer um indício de sua real intenção, que era nunca mais vê-lo.
Lembrou-se dele e sorriu com ternura. Como era anacrônico! Aos poucos, alguns flashes daquela noite lampejaram em suas memórias. Lembrou-se que, enquanto bebia o bourbon, Pedro permanecia estático, olhando-a com um olhar que deixava transparecer todo seu sentimento. Seu olhar a fitava como se tivessem se passado apenas dois minutos desde a última vez em que eles haviam se encontrado pela última vez. Com essa impressão ainda vívida nas pálpebras, seguiu a passos lentos, sem saber qual seria sua reação se algum dia soubesse de tudo.
“- Seria ele capaz de compreender seu choro e toda aquela angústia?”. Tinha um sonho, uma triste esperança de que ao saber de tudo, ele apenas soltaria uma gargalhada, lhe dizendo em seguida o quanto ela sempre era exagerada e dramatizava demais tudo.
Levantou os olhos e avistou um táxi descendo, a toda velocidade, pelo viaduto. Secou uma singela lágrima que sorrateiramente descia por seu semblante, fez um sinal para que parasse. Embarcou no carro e partiu, sem olhar para trás.
(Continua...)

Nenhum comentário: