segunda-feira, 17 de abril de 2017

Apesar de Você

Uma das coisas as quais tenho a agradecer ao meu pai, com relação ao meu gosto musical, se deve ao fato de que foi ele quem me apresentou a obra de Chico Buarque. Mesmo sem entender seu real significado ou sua profundidade, cantarolava "A Banda" e "Roda Viva", no auge dos meus 10, 12 anos, já com uma enorme admiração pelo compositor.

Essa admiração aumentou substancialmente quando, já adolescente, comecei a ler e me inteirar acerca do período da ditadura militar. Nenhum brasileiro escreveu tão bem acerca deste período como Chico, mesmo jamais tendo citado uma única vez a palavra ditadura em suas letras (ao menos, que eu lembre). Sua sutileza era magistral, na arte de tentar transmitir a angustia vivida à época, sem cair nas garras da censura.

Mas não foi só de versar sobre a ditadura que Chico foi mestre. Suas letras românticas -  poesias musicadas - me deixam embasbacado até hoje. Fora que Chico foi talvez o primeiro artista brasileiro a falar sobre o abuso contra a mulher, mesmo antes do feminismo aportar por aqui.

Por falar em mulheres, Chico compôs inúmeras canções voltadas às vozes femininas, escrevendo de maneira eloquente sobre os anseios e medos das mulheres que, sabemos, não tinham muita voz ativa naquele período. Como esquecer de músicas como "Meu Amor", "Folhetim" e "Geni e o Zepelim"? Chico tem enorme facilidade e desenvoltura de transitar entre o masculino e o feminino com uma naturalidade única e genuína.

Como vocês já devem ter percebido, eu poderia discorrer horas à fio sobre a obra de Chico e, mesmo assim, não conseguiria chegar próximo de explicar sua importância para o país, e para mim, fã incondicional de sua obra.

Entretanto, nem tudo são flores abaixo da Linha do Equador. Essa semana me deparei com a notícia de que "intelectuais e artistas" lançaram um manifesto contra o desmonte do país. Me dei ao trabalho de ler o documento, afinal, não é de bom tom criticar de forma leviana.

Não me choquei com o conteúdo - afinal, eu já imaginava o que viria -, mas me constrangi fortemente pela ideia central do documento: que o governo atual acabou com um país que era um paraíso, graças ao governo de Lula e Dilma.

Dentre os inúmeros devaneios contidos no manifesto, o movimento critica veementemente o que chamaram de "esvaziamento do BNDES" e o "esquartejamento da Petrobrás". São contra privatizações e acreditam na estatização de tudo no país. Estranho que isso me faz lembrar um certo país sul-americano que enveredou exatamente por esse caminho apontado pelos ditos intelectuais, e... bem, digamos que virou uma "Venezuela" o tal lugar.

Me constrange profundamente, como brasileiro, que ainda existem pessoas que justificam a roubalheira institucional instaurada no governo petista, baseando seus argumentos em falácias repetidas ao longo dos 14 anos em que estiveram no poder. Como alguém pode defender que as principais empresas estatais do país fossem utilizadas como aparato político de um partido que não governou para os brasileiros, e sim, em sua própria causa?

Repetem o mantra do governo que "acabou com a pobreza" e que tudo que aconteceu no Brasil é culpa do "Golpe".

Certamente, os intelectuais possuem uma memória curta demais, ou possuem um caráter questionável por concordar com isso. de qualquer forma, vamos aos fatos, que é o que realmente importa. Houve golpe? Sim. Isso é indiscutível. É claro e cristalino que o Governo Michel Temer só existe graças a um enredado esquema, cuja magnitude não sou capaz de alcançar, tampouco apontar seus principais engendradores. Entretanto, o governo do PT, através do aparelhamento das estatais para servirem de enormes cabides de emprego e caixa para pagamentos às construtoras, frigoríficos e mais um sem-fim e empresas e ramos de atividade, tentava dar o seu golpe também, fazendo de tudo para se perpetuar no poder, transformando o país em uma ditadura de esquerda. No governo petista os ricos ficaram ainda mais ricos e, dando esmola aos pobres, chamaram isso de "divisão de riquezas". Uma pinoia! Quem, por fim, acabou tendo que dar seu dinheiro nessa "divisão" foi o assalariado, que é quem carrega tudo isso nas costas e não tem ninguém para lutar por si.

O governo de Michel Temer não tem qualquer legitimidade para reformar coisa alguma, bem como nossos deputados e senadores, que estão com os bolsos recheados de dinheiro de empreiteiras. Mas, quem colocou o PMDB no jogo, em nome da "governabilidade"? Demonizar o PMDB, agora, é coisa mais fácil do mundo. Agora, assumir a responsabilidade por ter sido, no mínimo, conivente com o PMDB durante tanto tempo, o PT não quer.

Sobre a diminuição da desigualdade, podemos fazer duas leituras que não são excludentes, exceto em mentes perturbadas ou maliciosas. Pedir para alguém que morre de fome estudar, para tentar melhorar de vida, é a mais pura maldade. Quando você está com fome, você ficar irritado e não consegue pensar em mais nada. Agora, imagina você ficar 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano com fome, e sem a opção de abrir a geladeira ou armário para pegar algo para comer? Essa é a realidade de muita gente no país.

Portanto, ajudar em caráter emergencial essas pessoas era salutar, e nisso, o governo Lula agiu rápido - e corretamente, ao meu ver. Só que uma solução emergencial deve ser estabelecida apenas enquanto a solução definitiva estiver sendo organizada. E, obviamente, não foi o que vimos acontecer. Aliás, o que vimos foi o programa sendo utilizado para amedrontar quem recebia o benefício, a cada eleição, sob a falácia de que "se outro governante não petista assumisse, o programa seria extinto".

Nunca vi qualquer movimento do governo petista para retirar as pessoas da condição de "esmoleiros institucionais". O Bolsa-Família deveria ser um programa muito mais complexo, onde o objetivo fim deveria ser tirar as pessoas da condição de miséria e, posteriormente, possibilitar que elas pudessem viver em uma condição mais digna e sendo responsáveis por seu próprio sustento. Não foi nada disso que vimos acontecer. O Bolsa-Família se tornou o grande cabo eleitoral do governo petista e, portanto, nunca foi intenção do partido em tirar a pessoa de sua condição de miséria. E o povo, que já não é muito acostumado a pensar, aceitou a esmola de bom grado e continuou apertando o "13" com força nas urnas.

E então voltamos ao Chico. Não sei se foram os anos de batalha contra a ditadura, ou o peso da idade, que avança sobre seus ombros de forma impiedosa, que o transformaram nessa figura patética, que apoia aquilo que não merece apoio, o que não tem governo, o que não tem vergonha.

Minha admiração pela obra de Chico permanece imaculado. Inclusive, enquanto escrevo esse texto, estou ouvindo algumas de suas canções, e não tenho qualquer pudor em chamá-lo de gênio, apesar de você se esforçar tanto para que eu mude de ideia. Trocando em miúdos, na verdade, até você sabe a verdade, só não quer admitir, e acho isso tudo uma pena.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Reflexão

A vida, pueril como é, não deveria ser levada de forma tão leviana por nós. A diferença entre vida e morte pode não ser maior que um milésimo de segundo, ou um milímetro de uma curva. Mas por que cargas d'água somos tão irresponsáveis ao vivê-la?

Hoje, soube que uma pessoa que conheci faleceu em um acidente de moto. Não era amigo, falara com ele algumas vezes nos corredores da empresa. Trivialidades, apenas. Mas não consigo não pensar como uma fração de segundos acabou com sua vida.

Foi ontem à noite, perto das 23h, ele perdeu o controle de sua moto em um viaduto. Talvez voltando para casa, talvez cantarolando uma canção. Quem sabe pensando nas reuniões agendadas para hoje no escritório, ou no carnaval que se aproxima. E um segundo, um mísero segundo, bastou para que nada disso mais importasse.

Será que ele tinha planos? Sonhos? E agora, que tudo isso virou pó, em uma curva, em um segundo? E você que está lendo isso, já parou para pensar que poderia ser você? Todos os teus sonhos postergados, projetos engavetados e desejos podem, simplesmente, desaparecer, em uma simples curva do caminho?

O universo, vez ou outra, manda sinais como este para refletirmos sobre como conduzimos nossas vidas. Invariavelmente, damos de ombro, fingindo que não é conosco, mesmo que a verdade esteja prostrada na nossa frente, de braços abertos. E, no fim, um maldito segundo, ou uma maldita curva, podem acabar com tudo. Se a vida é tão frágil, por que a tratamos de forma tão negligente?

 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

No amor e na dor

Vocês viram o que está acontecendo no Espírito Santo? Barbaridade, não é? Mas, honestamente, tu achas que se a polícia simplesmente saísse das ruas na tua cidade, o cenário seria diferente? De antemão digo, sem qualquer medo de errar, que as coisas se desdobrariam da mesma forma.

O povo brasileiro daria um verdadeiro compêndio de antropologia de 100 volumes, no mínimo. Somos uma nação com um arcabouço legal imenso, quase impossível de ser contabilizado. Porém, se o braço do Estado não for incisivo na cobrança e aplicação destas leis, o povo se sente no "direito" de descumpri-las, pura e simplesmente. É uma verdadeira loucura a forma como nós brasileiros pensamos.

No Brasil, sentimos júbilo ao agir de forma contrária ao que prega a lei, ou mesmo normas sociais, aquelas as quais não estão escritas, mas que fazem parte do subconsciente de qualquer povo. Ser "fora da lei" é exaltado, e ser correto é objeto de ridicularização pública.

Além disso, temos uma outra classe de brasileiro, aquele que é o especialista em tudo. Economia, segurança pública, saúde, educação. Não há matéria da qual ele não tenha conhecimentos profundos. Discorre longamente sobre tudo, cheio de teorias mirabolantes e pré-conceitos embasados em frágeis argumentos. Já ouvi/li/assisti de tudo nesse país. Desde o muito usual "tem que matar mesmo!", ou a dicotomia dos manjados "coxinha" e "petralha", indo até o limite da loucura de ouvir que não se faz copa do mundo e olimpíada com hospital.

A lista é longa, porém, não me causa estranheza a forma de pensar do pessoal da "Terra Brasilis", afinal, somos tão fracos moralmente e pensamos de forma tão débil, que fazer uma comparação esdrúxula dessas é o menor dos problemas que temos.

Se quiséssemos que as coisas melhorassem, de verdade, investiríamos todos os recursos na educação. Não há qualquer outra solução cabível, tampouco deveria ser cogitada outra alternativa. Porém, ninguém fará isso, afinal de contas, educação não gera votos na próxima eleição. Além disso, duvido que qualquer um desses políticos que aí estão seriam eleitos novamente se nosso povo tivesse o mínimo de discernimento. Nossos políticos são “espertos”, não correriam esse risco.

O que nos resta então? Endurecer muito as leis e a fiscalização. Me sinto um pouco triste por propor algo assim, mas na situação em que estamos, não consigo vislumbrar outra alternativa. Senão, corremos o risco de que esta guerra civil na qual nos encontramos atualmente tome proporções irreversíveis num futuro muito próximo.

Não existe fórmula mágica: povo que não investe em educação, investe em presídio. Não há como fugir desta realidade. Já que nossos políticos não querem educação, e nossa população é tão bitolada que não discerne sobre a situação atual, a força bruta se torna a via mais rápida para as coisas não fugirem completamente do controle.

Pois como minha mãe sempre me disse, existem duas formas de aprender uma lição: ou se aprende pelo amor, ou então, se aprende pela dor. O brasileiro, diariamente, dá provas de que "no amor" as coisas não funcionam. Portanto, o choque de realidade é preciso. É preciso sentir a dor para aprender.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Análise de Celular Velho - LG G4 H815P

Dando prosseguimento a esta inovadora forma de avaliar os aparelhos telefônicos já muito usados, hoje, postaremos nossas impressões e opiniões sobre o telefone LG G4 H815P, utilizado durante o período de 1 ano e 1 mês. 
Se quiserem ver nossas primeiras impressões sobre este aparelho, leiam este post AQUI.

Mas, deixando o blá blá blá de lado, vamos ao que realmente interessa!

Principais características:

    Qualcomm Snapdragon 808 Cortex-A57
    Processador - 1.8 GHz Hexa Core
    GPU - Adreno 418
    RAM - 3GB
    Memória Interna - 32GB
    Memória Expansível - Até 128GB
    Tela - 5,5 polegadas
    Resolução - 1440 x 2560 pixel
    Densidade de Pixels - 534dpi
    Espessura - 9,8 milímetros
    Dimensões (altura x largura) - 148.7 x 76.7 milímetros
    Peso - 155 gramas

Android:
Como já tinha sido divulgado pela LG, mesmo com certa demora, o aparelho recebeu a atualização para o Android 6.0 (Marshmellow). Porém, ao invés de economizar bateria, como havia sido divulgado como sendo uma das principais melhorias trazidas pelo novo SO, o que notei foi um aumento significativo do aquecimento e do consumo de bateria do aparelho. Nos últimos tempos em que fiquei com o aparelho, inclusive, eu estava realizando duas cargas diárias, sendo uma no meio da tarde, e a outra deixando-o dormir na tomada, sempre com carga inferior a 20%. Acredito que alguém errou feio na hora de customizar essa parte da economia de energia para o G4, hein LG?

Bateria
A bateria nunca foi o ponto forte deste aparelho. A altíssima resolução da tela cobra um caro preço da pobre bateria de 3.000Ma/H. No início, administrando bem o uso do aparelho, conseguia chegar em casa no final do dia com uns 20% de carga. 
Porém, conforme adiantei acima, após a atualização do SO, a bateria se tornou uma enorme dor de cabeça. Viver com um cabo de carregador sempre à disposição se tornou uma cansativa rotina. 

Tela
A enorme tela, com um número alto de pixels faz um trabalho fabuloso. Entretanto, depois de um três meses de uso, verifiquei que quando o fundo  da imagem era escuro, surgia uma mancha do tamanho de uma ponta de dedo, na cor vermelha. O mais curioso é que esse ponto surgiu exatamente no lugar que mais ficava aquecido durante o uso do telefone. Suspeito que ele fica posicionado onde está o processador. Isso não atrapalhava o uso nem nada, mas deixo aqui registrado, até mesmo para saber se aconteceu com mais alguém.

Áudio
Os fones QuadBeat, que acompanham o aparelho são ótimos, e não há que se discutir isso. Porém, no meu caso, depois de uns seis meses de uso, notei que o volume dele começou a diminuir, até chegar ao ponto de que, mesmo no volume máximo, eu conseguir ouvir apenas um som bem baixo e distante. Testei outros fones e todos funcionaram bem. Então, testei o QuadBeat no meu notebook e conclui que o problema era ele mesmo.
Já o áudio do aparelho, apesar de mono, é alto e claro. O que poderia ser revisto é seu posicionamento, pois para assistir filmes ou jogar, em muitas ocasiões, acabei tapando a saída de áudio com a mão.

Design e Aparência
Por ser um entusiasta de telefones, sempre que adquiro um novo aparelho, uma das primeiras providências que adoto é a colocação de película de vidro e uma capa de proteção. Desta forma, após mais de um ano de uso, externamente, não havia qualquer sinal de arranhões, descascamentos ou danos à carcaça e tela. 
Porém, pensando com clareza agora, pelo preço que paguei neste aparelho na época, ter uma traseira de plástico texturizado, enquanto seus principais concorrentes investiram em materiais mais refinados, como vidro e metal, não foi uma decisão muito inteligente na empresa coreana. 

Desempenho
Os seis núcleos de processamento, conjuntamente com os 3GB de memória RAM, fizeram um bom trabalho. Mas algo que me chamou atenção desde o inicio do uso foi o fato de que o processador aquecia demasiadamente, mesmo desempenhando tarefas mais simples, ocasionando lag e, algumas vezes, o travamento do aparelho. Em parte, talvez seja isso esteja relacionado à "queima" posterior do aparelho, com pouco mais de um ano de uso.
Mas na minha opinião, a causa principal da queima se deva ao problema já sabido pela LG de que esses aparelhos sofriam de bootloop, o que causa o travamento total do telefone e, em casos extremos (como o meu), queima do mesmo.
Apesar de ter ficado indignado quando o problema ocorreu, pois, se a LG já sabia disso, deveria ter entrado em contato com os consumidores para efetuar o recall, há de se reconhecer o mérito de que, mesmo já tendo ultrapassado o prazo da garantia - que era de um ano -, o atendimento da LG foi bastante eficiente no tratamento do caso, me direcionando para a assistência técnica, sendo que esta já estava ciente que eu levaria meu aparelho lá. Após pouco mais de uma semana a peça foi trocada e o telefone voltou a vida.
Entretanto, deixo registrado que é inadmissível que um telefone que se diz um flagship estrague com um ano apenas de uso, por um problema que a fabricante já tinha conhecimento. No mínimo os consumidores deveriam ser informados do problema previamente para, caso fosse necessário, tomar as providências cabíveis, ou até mesmo, pedir o dinheiro de volta, como manda o Código de Defesa do Consumidor. 

Conclusão
A LG acertou - e muito - em aspectos como câmera e tela do G4. Sem sobra de dúvidas, a câmera deste aparelho foi a melhor que já passou em minhas mãos, com fotos ricas em detalhes e sem ruídos, sempre, em qualquer condição de luz, e uma tela que, por conta de sua alta densidade, torna a experiência de assistir vídeos e filmes algo muito prazeroso.
Contudo, mesmo esses aspectos positivos, não nos fazem esquecer dos pecados cometidos pela empresa sul-coreana. Seu desleixo com os materiais pobres utilizados na construção do dispositivo, passando pelo defeito crônico que ocasionou a "queima" do aparelho, não podem ser ignorados na hora de se fazer a análise do produto.
Se a LG tinha a intenção de competir com os gigantes flagships Iphone e Galaxy S, falhou miseravelmente na sua aposta. o LG G4, na minha opinião, no máximo seria classificado com o um telefone médio, tal como o Galaxy A5 e Moto X Play, com um custo, por vezes, mais elevado que os concorrentes, e entregando aspectos inferiores em boa parte dos itens.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Fim de ano e as lembranças

Tenho andado meio afastado do blog esse ano, mais do que o normal, até. Mas vamos combinar que o ano de 2016 foi um ano "movimentado" demais para o meu gosto. Tanta coisa aconteceu... Coisas boas, coisas ruins - talvez mais ruins que boas - inclusive.

E como é sabido pelos assíduos (2) leitores desta página, os finais de ano têm um efeito negativo sobre mim. Fico nostálgico, pensativo, introspectivo. Nunca consegui mapear as causas dessa sensação de solidão que me acomete quando dezembro surge nas páginas do desgastado calendário.

Se bem que é provável que isso seja algum resquício de minha infância. Os meus finais de ano, historicamente, foram palco de bizarrices e outras coisas que, talvez, tenham marcado meu subconsciente de forma eterna.

Exemplificando, posso lhes contar sobre o natal de 1986. Família reunida, preparativos sendo realizados até que - e eu nunca soube como -, uma mesa caiu sobre a minha cabeça. Foi aquela correria para o hospital. Sangue por todo o lado e minha mãe (grávida) desesperada. Em resumo, não houve muito clima para comemoração naquele ano.

Em outras duas oportunidades, em anos novos posteriores, levei duas rolhadas de espumante na cabeça. Apesar de não se tratar de um episódio tão grave quanto o da mesa, ainda assim, as memórias dos incidentes não se apagaram de minha mente.

Depois, já na adolescência, em um natal, tive uma grande briga com uma ex-namorada, por motivos que talvez não caibam citar (vai que ela resolve ler e me processar?). Não preciso nem dizer que "enchi o rabo" de espumante por conta disso e meu natal foi uma bosta. O namoro ainda perdurou mais uns 2 meses, mas como já era previsto, estava fadado ao fracasso.

Eu poderia resgatar mais algumas outras lembranças de péssimos finais de ano que tive, mas, na verdade, enquanto escrevo esse texto, minha mente insiste em me levar ao ano de 1989, ou, como costumo pensar nele, o último natal em que minha família inteira passou junta.

Passamos na casa do meu avô, no bairro IAPI. Meus Avós, meus pais, minha irmã ainda pequena, tios, tias, primos e primas reunidos, como nunca antes havia ocorrido, com direito a arroz de uvas passas e maionese de maçã (olha aí outra péssima lembrança!). Se minha memória não estiver me traindo, ainda guardo na retina as risadas daquela noite. Lembro da brincadeira de mímica, que era um clássico da família. Recordo claramente das piadas de salão (pregos Souza são infalíveis!). Lembro claramente de ter ganhado um revólver de espoleta, que não preciso nem dizer que foi uma péssima ideia, pois disparei a arma do lado do ouvido de uma prima minha, gerando alguns “problemas”. Lembro daquelas que, por conta do destino, não estão mais conosco: Sérgio, Vilson, Nabor.

Hoje, meu núcleo familiar diminuiu consideravelmente, por conta dessas coisas que a vida insiste em apresentar, e que nada podemos fazer a respeito para mudar. Mas esse ano, tenho a impressão de que as coisas serão melhores. Temos a Giovanna, a primeira criança na família em muitos anos. Teremos uma grande festa. Teremos risadas e alegria. Creio que, nesse ano, as coisas serão bem melhores, apesar de 2016 ter durado mais do que deveria.

 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Agora eu acredito

O ano era 2007. Já havia passado dos 30 minutos do segundo tempo, e o juiz acabara de marcar um pênalti contra o Grêmio. Naquela altura, já perdíamos por 2x0 para o Boca Juniors e, na iminência de levar o terceiro gol, dei de costas para o campo e me dirigi para a saída. Ainda, tive que ouvir algum imbecil me xingando, me chamando de turista e o escambau. Mesmo que eu já fosse sócio há alguns anos e tivesse ido em quase todos os jogos na segunda divisão, pensei comigo. Mas ignorei e continuei minha triste caminhada rumo a saída.

 

Se passaram 9 anos desde aquela frustrante lembrança. Ao longo deste período, vivemos um período de ostracismo irritante. Ano após ano, derrota após derrota, frustração após frustração, fomos desenvolvendo uma espécie de ceticismo protecional sobre tudo que permeia o time. Nenhum jogador é unanime de forma positiva. Nenhuma vitória nos convence de que temos condição de retomar os caminhos de títulos e glórias dos anos 90. Tudo para evitarmos novas desilusões, como aquela de 2007.

 

Mas ontem, depois de tanto tempo, percebo que deixamos os elmos e escudos de defesa de lado, e começamos a cantar a plenos pulmões novamente. Mesmo que nossa consciência insista em ligar o alerta de que ainda faltam 90 minutos para jogar e nada está ganho, nosso subconsciente já grita cânticos da torcida e chora copiosamente - possivelmente bêbado -, certo de que esse caneco já tem dono.

 

Devemos e precisamos respeitar o Atlético. É um grande clube, com um plantel muito interessante e, do mesmo jeito que fomos em Minas e fizemos uma diferença de 2 gols, nada impede que um Lucas Pratto ou um Robinho inspirado façam o crime aqui na Arena. Entretanto, depois do que assistimos ontem, no Mineirão, até o mais cético gremista passou a acreditar que é possível. Vimos um time com organização, empenho, garra e vontade de vencer. Creio que depois de tanto tempo, finalmente, seremos felizes novamente. Meu subconsciente já tomou conta - bêbado -, e está gritando loucamente na minha cabeça: "O GRÊMIO VAI SAIR CAMPEÃO! O GRÊMIO VAI SAIR CAMPEÃO!".

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Cidadão de Bem

Me causa estranheza uma certa estratificação a qual estamos sujeitos, muito recorrente em nosso dia-a-dia, e amplamente utilizada pelas mídias de maneira inescrupulosa, sem que se faça qualquer análise sobre seu significado. Quantas vezes não vimos/lemos/ouvimos a expressão “cidadão de bem”? Mas para você, quem é esse cidadão?

 

Segundo a maioria da opinião pública, cidadão de bem é aquele sujeito de originário de um clã tradicional, que estudou em um bom colégio, depois virou médico, contador ou engenheiro, constituiu uma família baseada em valores cristãos, ou seja, homem casado com mulher, com dois filhos, cachorro, papagaio e casa na praia de Imbé. O cidadão de bem vai à igreja nos domingos e participa da associação de moradores do bairro.

 

Cidadão de bem usa camisa polo, calça jeans e sapato mocas sim, mesmo nos finais de semana. Anda sempre de barba feita e usa um pijama de algodão. É reconhecido pelos seus pares como um sujeito acima de qualquer suspeita e, um dia, quem sabe, será vereador da cidade, sendo este o ápice da vida de um verdadeiro cidadão de bem.

 

Como tudo isso me soa falso! Como tudo isso me causa asco! Não tanto pelas enumerações que fiz acima. Elas, se pensadas de forma individual, são coisas corriqueiras e banais, sem qualquer significado aparente. O ponto focal desta análise é a forma tornaram a junção de todos esses aspectos nessa caricatura de uma pessoa de conduta ilibada, que deveria servir de exemplo aos demais, como poço de virtude, sucesso e retidão de caráter.

 

Esses mesmos “cidadãos de bem”, normalmente, não gostam dos negros, tampouco dos pobres. Pensam que bandido bom é bandido morto. Condenam as prostitutas, enquanto pagam abortos em clínicas ilegais para suas filhas. Internam seus filhos em clínicas de reabilitação afastadas para que seus pares não saibam de suas desgraças. O cidadão de bem não transa com a esposa há cinco anos e resolve seus fetiches e desvios na cama das mesmas garotas de programa que condena na vida social. Garotas que, algumas vezes, nem mesmo são “garotas” de verdade.

 

O cidadão de bem sonega impostos, incluindo despesas médicas inexistentes na sua declaração de IR, suportadas por recibos fornecidos por outro cidadão de bem amigo seu, afinal, todo mundo faz isso, não é mesmo? Cidadão de bem, quando empresário, explora funcionários, pagando-lhes salários vergonhosos, sob o velho discurso falacioso de que “está gerando riqueza ao país”. O que ele esquece de citar são as condições insalubres a que seus funcionários são expostos, ou as “manobras contábeis” feitas em seus livros, somente para aumentar seus lucros (a alta carga tributária brasileira não é foco desse texto, pelo menos hoje).

 

Ser cidadão de bem, nesse contexto cantado em prosa e verso por aí, é ser, antes de tudo, um engodo, um mentiroso. É uma fabricação da própria sociedade, como forma de separar seus “melhores frutos” do lixo. A sociedade deveria perceber que ao invés de temer o mendigo, o negro, ou o pobre, deveria, na verdade, combater urgentemente o cidadão de bem, pois este é capaz de inflingir mais danos à população que qualquer bandido destes que “merecem morrer”.

 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A "novidade" da violência

O clima em Porto Alegre é de guerra, e não é de hoje. Como já abordei anteriormente em outro texto do blog, segurança, antes de mais nada, é uma sensação. E em Porto Alegre, atualmente, é impossível sentir-se seguro.

O latrocínio da mãe buscando o filho em uma escola chocou a sociedade gaúcha, assim como a morte da médica, no dia dos pais, em uma sinaleira, já havia causado uma enorme comoção. Ao que tudo indica, o assassinato da mulher na porta de um colégio particular foi a gota da água para a população, que agora exige medidas enérgicas dos governantes. A mídia, desde ontem, está publicando editoriais e teorias sobre o avanço da violência no Rio Grande do Sul.

Porém, não posso me livrar de uma reflexão: há cerca de duas noites, três mulheres foram executadas em Alvorada. Por que não vi qualquer linha dos formadores de opinião nos jornais, ou indignação da população gaúcha em decorrência disso?

Não ouvi ninguém bradando acerca do quanto a violência preocupa as pessoas, quando mulheres pobres são mortas em uma vila. Isso é longe da "sociedade de bem", pagadora de impostos. Essas pessoas só enxergam a violência quando ela "desce para o asfalto".

Não quero fazer um concurso de qual vida vale mais. Na minha visão, todas as vidas deveriam ter o mesmo valor. Mas não é o que ocorre. A opinião pública só enxergou a violência quando ela foi bater na porta da classe média/alta dos gaúchos. Há anos pessoas são mortas nas periferias. Nas vilas, desde sempre, as pessoas vêm sendo assaltadas, sendo expulsas de casa por traficantes, mas nada disso fez os gaúchos se sentirem inseguros.

A violência, quando restrita às periferias, é invisível, tal como sujeira debaixo do tapete: todo mundo sabe que está lá, mas se não estamos vendo, ok. O problema todo é que, agora, o tapete foi retirado, e o vento está espalhando a sujeira pela casa toda.

Os anos de abandono da população das periferias, entregues às suas próprias leis impostas por criminosos, finalmente extrapolou a "fronteira". A violência saiu da vila, e está com sangue nos olhos, pelos anos de exclusão e invisibilidade com que foi tratada.

A violência ganhou o asfalto, e a sociedade gaúcha não estava preparada para isso.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Falando sozinho

Tenho percebido que cada vez menos sinto vontade de falar, sobre qualquer tema, com qualquer pessoa. No início, ao perceber isso, pensei ser um problema meu. Um processo de introspecção tardia, ou talvez o acúmulo dos problemas inerentes à vida adulta cobrando seu preço.

Porém, após refletir algumas boas horas sobre isso, descobri não se tratar de nada disso. A coisa é bem pior do que eu imaginava: simplesmente parei de falar pois as pessoas, atualmente, não querem mais ouvir ninguém, somente o som doce de sua própria voz.

Mas antes que alguém se apresse a me contrapor, explicou que não se trata de um "complexo de vira-latas" que estou sendo acometido. Esse fenômeno não ocorre somente comigo. Estamos todos assim. Ninguém escuta ninguém. A moda, atualmente, é falar - e muito -, não importando o interesse do interlocutor, ou seu embasamento sobre o tema. A famosa ciranda do “quanto mais, melhor”.

A modernidade possibilitou a um maior número de pessoas a possibilidade de se expressar para um público maior, que vai muito além de nosso círculo de amizades ou familiar. Entretanto, há um paradoxo nisso: todos se sentem impelidos a opinar, o tempo todo, sobre tudo, sendo que quase ninguém quer realmente saber todas as suas opiniões.

O que deveria se tornar algo benéfico, acabou por ensurdecer as pessoas. A sensação de que esse aumento no volume de opiniões melhorou a comunicação é uma enorme falácia. Nunca nos comunicamos tão mal como nesse século. E as coisas tendem a piorar ainda mais.

É um enorme mundo de solidão, onde falamos ao vento, nos enganando sobre uma pseudocomunicação que, na verdade, é danosa para o convívio humano. Não recebemos mais opiniões distintas das nossas, o que nos isola em um universo de simplificação que, sem a contradição, o contraponto, na verdade, se tornará um enorme buraco negro, para onde a humanidade está sendo sugada, sem nem ao menos lutar, uma vez que, mesmo que gritássemos a plenos pulmões, ninguém ouviria.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Inevitável

A morte não pede licença, não pede favor. Chega, toma, parte, sem ao menos dizer um tímido "tchau". Ignora solenidades, etiquetas ou convenções sociais. Ela não é dada a este tipo de formalidades.